- A Proton analisou os 100 jogos gratuitos mais baixados na Google Play nos EUA, no Reino Unido, na Alemanha e na França, com estimativas de download da AppTweak para maio de 2026.
- Nos EUA, jogos com rastreadores ligados a empresas chinesas representaram 81% dos downloads examinados; os ligados a empresas russas, 71%.
- O levantamento achou até 36 assinaturas de rastreadores em um único jogo e uma média de 29 por aplicativo.
- Sete dos 100 jogos mais baixados no mundo têm código de rastreamento de localização, entre eles o Pokémon GO, que usa a posição do jogador como parte da mecânica.
Um levantamento da Proton, empresa dona do Proton VPN, encontrou código de rastreamento associado a empresas da China e da Rússia em boa parte dos jogos gratuitos mais baixados da Google Play nos Estados Unidos e em três mercados europeus. O estudo foi publicado no blog da companhia e cobre os 100 jogos mais baixados de cada país analisado.
A metodologia explica o alcance e o limite do resultado: em vez de capturar o tráfego de rede, a Proton procurou assinaturas conhecidas de rastreadores no código dos jogos.
Todos os dados desta seção vêm do estudo da Proton publicado no blog da Proton VPN.
Como o estudo foi feito
Para contar rastreadores, a Proton usou os relatórios abertos do Exodus Privacy, plataforma que faz análise estática de aplicativos Android para detectar as assinaturas de código de analytics, publicidade e profiling.
A escolha dos países segue uma lógica declarada: Rússia e China pelo cenário geopolítico, os membros da aliança Five Eyes pelo tamanho da população atingida e Israel por concentrar um setor de ad-tech grande e maduro.
Os volumes de download vêm de estimativas de mercado, não de números divulgados pelo Google.
O resultado agregado dá a dimensão da indústria envolvida. Os títulos que aparecem no estudo estão entre os mais populares do planeta e somam quase 20 bilhões de downloads acumulados no mundo, segundo a Proton, e a média de 29 rastreadores por aplicativo indica que o problema não está em um componente isolado, mas na pilha de bibliotecas que os desenvolvedores montam para monetizar e medir uso.
Os números por país
| País | China | Rússia | Israel | Five Eyes | Todos os grupos |
|---|---|---|---|---|---|
| Estados Unidos | 81% | 71% | 95% | 98% | 70% |
| Reino Unido | 84% | 74% | 95% | 99% | 73% |
| Alemanha | 82% | 69% | 91% | 97% | 68% |
| França | 78% | 70% | 93% | 98% | 68% |
Os percentuais representam a fatia dos downloads estimados em maio de 2026 em jogos que contêm cada tipo de rastreador. Não são a proporção de jogos distintos nem de usuários. Fonte: Proton.
A leitura em números absolutos ajuda a dimensionar. Só nos EUA, os jogos analisados foram baixados quase 20 milhões de vezes em um mês, e os que carregavam rastreadores de localização somaram 1,7 milhão de downloads. Na Alemanha, mais de 371 mil downloads foram para aplicativos com esse tipo de código.

Assinatura de rastreador não é prova de envio
O ponto mais importante para interpretar o estudo é técnico.
O Exodus Privacy identifica código conhecido dentro do aplicativo, e essa identificação não prova que o rastreador foi executado, que acessou uma categoria específica de dado pessoal ou que enviou informação para fora do país.
A própria cobertura da pesquisa registra a ausência de capturas de tráfego que mostrem o que os jogos transmitiram de fato. O que o levantamento demonstra é a capacidade instalada: quantos componentes de rastreamento os aplicativos carregam e para quais jurisdições esses componentes apontam.
Na avaliação da Proton, o cenário possível varia do incômodo ao risco real, e a empresa foi direta na descrição:
No melhor cenário, alguma empresa obscura de ad-tech sabe demais sobre você ou sobre seus filhos. Um cenário um pouco mais preocupante tem essa empresa atacada por criminosos, o que coloca seus dados nas mãos deles. Possivelmente o pior caso é quando a ad-tech fica em um país como a Rússia ou a China, o que significa que um governo potencialmente adversário ganha acesso às informações pessoais de milhões de pessoas.
Blog da Proton VPN, estudo sobre jogos gratuitos para celular
A empresa resume a posição institucional em uma frase que aparece no fim do relatório: privacidade é um direito, não um recurso.
Localização é o dado que mais pesa
Entre os dados que os rastreadores podem alcançar, a localização tem peso diferente.
Ela funciona como um registro de rotina, e não como um atributo isolado. Um histórico de posições mostra onde a pessoa trabalha e onde dorme, se ela passou por um posto de saúde, se foi a um protesto ou a um local de culto. A Proton lista sete jogos entre os 100 mais baixados do mundo com rastreadores de localização, entre eles Pokémon GO, Jewel Coloring e Rebel Glam: Dress Up Games.
Pokémon GO tem motivo declarado para pedir a posição, já que o jogo se baseia nela.
Um jogo de colorir ou um puzzle não tem a mesma justificativa, e é justamente aí que o estudo aponta o desequilíbrio entre o que o aplicativo precisa e o que ele consegue coletar.
O custo escondido do grátis
O modelo free-to-play depende de publicidade e de dados, e o relatório trata isso como o problema de fundo, não como um desvio de alguns estúdios. Sem receita direta do jogador, a monetização passa a vir da medição do comportamento e da entrega de anúncios.
Existe também o risco de vazamento, que não é hipotético. O Mixpanel, plataforma de analytics embutida em muitos aplicativos, informou em novembro de 2025 uma invasão que expôs dados históricos de clientes e metadados que permitiam identificar usuários. Entre os jogos que enviam dados ao Mixpanel e aparecem nas tabelas da Proton está o Roblox, com mais de 1 bilhão de downloads acumulados.
O que dá para fazer no celular
Nenhuma dessas medidas elimina o rastreamento, mas reduz a superfície de exposição sem custo:
- Revisar as permissões de cada jogo instalado e negar acesso à localização quando ele não depende dela para funcionar.
- Desinstalar jogos que ficaram parados, já que o aplicativo segue presente e continua sendo atualizado.
- Usar um bloqueador de DNS, que impede a resolução de domínios conhecidos de anúncios e rastreadores antes que a conexão aconteça. O NetShield do Proton VPN funciona nessa lógica e é citado no próprio relatório.
- Preferir jogos pagos, em que a receita vem da compra e a versão costuma vir sem anúncios.
Para quem joga títulos populares como o Subway Surfers, com 32 assinaturas de rastreadores nas tabelas da Proton, vale conferir as permissões antes da próxima atualização.
O ponto central do relatório é o modelo de negócio, não um jogo específico. Enquanto a receita vier de anúncios e de dados, a pilha de bibliotecas dentro de cada aplicativo tende a seguir opaca para quem joga, e a transparência depende de regulação e de escolha do usuário.
Fontes:
- Proton VPN: Some of the biggest mobile games are infested with trackers, fonte primária do estudo.
- CyberInsider: Proton finds Russian and Chinese trackers in popular Android games, cobertura que levanta a ressalva sobre a análise estática.