Proton encontra rastreadores russos e chineses em jogos populares de Android

by TekBlue, quarta-feira, 30 setembro 2026 (45 minutos atrás)
Proton encontra rastreadores russos e chineses em jogos populares de Android
  • A Proton analisou os 100 jogos gratuitos mais baixados na Google Play nos EUA, no Reino Unido, na Alemanha e na França, com estimativas de download da AppTweak para maio de 2026.
  • Nos EUA, jogos com rastreadores ligados a empresas chinesas representaram 81% dos downloads examinados; os ligados a empresas russas, 71%.
  • O levantamento achou até 36 assinaturas de rastreadores em um único jogo e uma média de 29 por aplicativo.
  • Sete dos 100 jogos mais baixados no mundo têm código de rastreamento de localização, entre eles o Pokémon GO, que usa a posição do jogador como parte da mecânica.

Um levantamento da Proton, empresa dona do Proton VPN, encontrou código de rastreamento associado a empresas da China e da Rússia em boa parte dos jogos gratuitos mais baixados da Google Play nos Estados Unidos e em três mercados europeus. O estudo foi publicado no blog da companhia e cobre os 100 jogos mais baixados de cada país analisado.

A metodologia explica o alcance e o limite do resultado: em vez de capturar o tráfego de rede, a Proton procurou assinaturas conhecidas de rastreadores no código dos jogos.

Todos os dados desta seção vêm do estudo da Proton publicado no blog da Proton VPN.

Como o estudo foi feito

Para contar rastreadores, a Proton usou os relatórios abertos do Exodus Privacy, plataforma que faz análise estática de aplicativos Android para detectar as assinaturas de código de analytics, publicidade e profiling.

A escolha dos países segue uma lógica declarada: Rússia e China pelo cenário geopolítico, os membros da aliança Five Eyes pelo tamanho da população atingida e Israel por concentrar um setor de ad-tech grande e maduro.

Os volumes de download vêm de estimativas de mercado, não de números divulgados pelo Google.

O resultado agregado dá a dimensão da indústria envolvida. Os títulos que aparecem no estudo estão entre os mais populares do planeta e somam quase 20 bilhões de downloads acumulados no mundo, segundo a Proton, e a média de 29 rastreadores por aplicativo indica que o problema não está em um componente isolado, mas na pilha de bibliotecas que os desenvolvedores montam para monetizar e medir uso.

Os números por país

PaísChinaRússiaIsraelFive EyesTodos os grupos
Estados Unidos81%71%95%98%70%
Reino Unido84%74%95%99%73%
Alemanha82%69%91%97%68%
França78%70%93%98%68%

Os percentuais representam a fatia dos downloads estimados em maio de 2026 em jogos que contêm cada tipo de rastreador. Não são a proporção de jogos distintos nem de usuários. Fonte: Proton.

A leitura em números absolutos ajuda a dimensionar. Só nos EUA, os jogos analisados foram baixados quase 20 milhões de vezes em um mês, e os que carregavam rastreadores de localização somaram 1,7 milhão de downloads. Na Alemanha, mais de 371 mil downloads foram para aplicativos com esse tipo de código.

Tabela Com Os Jogos Mais Baixados Nos Estados Unidos Em Maio De 2026 E Os Rastreadores Encontrados Em Cada Um
Tabela Com Os Jogos Mais Baixados Nos Estados Unidos Em Maio De 2026 E Os Rastreadores Encontrados Em Cada Um

Assinatura de rastreador não é prova de envio

O ponto mais importante para interpretar o estudo é técnico.

O Exodus Privacy identifica código conhecido dentro do aplicativo, e essa identificação não prova que o rastreador foi executado, que acessou uma categoria específica de dado pessoal ou que enviou informação para fora do país.

A própria cobertura da pesquisa registra a ausência de capturas de tráfego que mostrem o que os jogos transmitiram de fato. O que o levantamento demonstra é a capacidade instalada: quantos componentes de rastreamento os aplicativos carregam e para quais jurisdições esses componentes apontam.

Na avaliação da Proton, o cenário possível varia do incômodo ao risco real, e a empresa foi direta na descrição:

No melhor cenário, alguma empresa obscura de ad-tech sabe demais sobre você ou sobre seus filhos. Um cenário um pouco mais preocupante tem essa empresa atacada por criminosos, o que coloca seus dados nas mãos deles. Possivelmente o pior caso é quando a ad-tech fica em um país como a Rússia ou a China, o que significa que um governo potencialmente adversário ganha acesso às informações pessoais de milhões de pessoas.

Blog da Proton VPN, estudo sobre jogos gratuitos para celular

A empresa resume a posição institucional em uma frase que aparece no fim do relatório: privacidade é um direito, não um recurso.

Localização é o dado que mais pesa

Entre os dados que os rastreadores podem alcançar, a localização tem peso diferente.

Ela funciona como um registro de rotina, e não como um atributo isolado. Um histórico de posições mostra onde a pessoa trabalha e onde dorme, se ela passou por um posto de saúde, se foi a um protesto ou a um local de culto. A Proton lista sete jogos entre os 100 mais baixados do mundo com rastreadores de localização, entre eles Pokémon GO, Jewel Coloring e Rebel Glam: Dress Up Games.

Pokémon GO tem motivo declarado para pedir a posição, já que o jogo se baseia nela.

Um jogo de colorir ou um puzzle não tem a mesma justificativa, e é justamente aí que o estudo aponta o desequilíbrio entre o que o aplicativo precisa e o que ele consegue coletar.

O custo escondido do grátis

O modelo free-to-play depende de publicidade e de dados, e o relatório trata isso como o problema de fundo, não como um desvio de alguns estúdios. Sem receita direta do jogador, a monetização passa a vir da medição do comportamento e da entrega de anúncios.

Existe também o risco de vazamento, que não é hipotético. O Mixpanel, plataforma de analytics embutida em muitos aplicativos, informou em novembro de 2025 uma invasão que expôs dados históricos de clientes e metadados que permitiam identificar usuários. Entre os jogos que enviam dados ao Mixpanel e aparecem nas tabelas da Proton está o Roblox, com mais de 1 bilhão de downloads acumulados.

O que dá para fazer no celular

Nenhuma dessas medidas elimina o rastreamento, mas reduz a superfície de exposição sem custo:

  • Revisar as permissões de cada jogo instalado e negar acesso à localização quando ele não depende dela para funcionar.
  • Desinstalar jogos que ficaram parados, já que o aplicativo segue presente e continua sendo atualizado.
  • Usar um bloqueador de DNS, que impede a resolução de domínios conhecidos de anúncios e rastreadores antes que a conexão aconteça. O NetShield do Proton VPN funciona nessa lógica e é citado no próprio relatório.
  • Preferir jogos pagos, em que a receita vem da compra e a versão costuma vir sem anúncios.

Para quem joga títulos populares como o Subway Surfers, com 32 assinaturas de rastreadores nas tabelas da Proton, vale conferir as permissões antes da próxima atualização.

O ponto central do relatório é o modelo de negócio, não um jogo específico. Enquanto a receita vier de anúncios e de dados, a pilha de bibliotecas dentro de cada aplicativo tende a seguir opaca para quem joga, e a transparência depende de regulação e de escolha do usuário.

Fontes:

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